“The Lady Is a Tramp” é fantástica. Entender o significado da palavra tramp aqui é o grande segredo para captar a genialidade da letra.
Em inglês, tramp pode significar "mendigo",
"andarilho" ou, de forma pejorativa, "vagabunda". Porém,
nessa música (composta em 1937 por Rodgers e Hart), a palavra é usada de forma
totalmente irônica. A letra é uma grande sátira à alta sociedade de Nova York.
A "dama" em questão é chamada de tramp pelos ricaços esnobes
simplesmente porque ela prefere as coisas simples da vida e se recusa a fingir
ser quem não é. Para eles, ela "não tem classe"; para nós, ela é
autêntica e despojada.
Aqui está uma tradução que preserva esse espírito irônico e
o contexto da época (baseada na versão mais famosa, imortalizada por Frank
Sinatra e relançada por Tony Bennett e Lady Gaga):
Letra Traduzida: A Dama é Despojada (The Lady Is a Tramp)
Ela sente muita fome para jantar às oito She gets too hungry for dinner at eight
Ela adora o teatro, mas nunca chega tarde She loves the theater, but never comes late
E ela não perde tempo com pessoas que odeia She never bothers with people she hates
É por isso que dizem
que a dama é "sem classe" That's why the lady is a tramp
Não frequenta festas com jogos de cartas falsos Doesn't
go to crap games with barons or earls
Não vai a jantares para exibir suas pérolas Won't go to Harlem in ermine and pearls
Não joga conversa fora com as outras garotas Won't
dish the dirt with the rest of the girls
É por isso que a dama é despojada That's why the lady is
a tramp
Ela adora o vento livre e fresco em seu cabelo She loves the free, fresh wind in her hair
A vida sem amarras é o seu único plano Life without care or strings is her prayer
Ela está falida, mas isso é problema dela She's broke, but it's "oke" (okay)
Ela não suporta a Califórnia, é muito fria e cheia de pose Hates California, it's cold and it's damp
É por isso que a dama é "sem classe" That's why the
lady is a tramp
Entendendo as referências da letra
Para a tradução fazer sentido pleno, vale notar o que ela
está criticando:
- "Dinner
at eight" (Jantar às oito): Na Nova York dos anos 1930, a elite
jantava rigidamente às 20h em restaurantes chiquérrimos. A
"dama" acha isso uma frescura; se ela tem fome antes, ela come e
pronto.
- "Harlem
in ermine and pearls" (Ir ao Harlem de arminho e pérolas): Era uma
moda condenável da época em que os ricos iam aos clubes de jazz do Harlem
(bairro negro e historicamente mais pobre) vestindo casacos de pele
caríssimos (ermine) só para ostentar. Ela se recusa a fazer esse
tipo de turismo social.
- "Hates
California, it's cold and it's damp": Embora a Califórnia seja
ensolarada, os artistas de Nova York (como os compositores da música)
costumavam zoar o estado do cinema por ser um lugar "frio e
úmido" em termos de falsidade e aparências de Hollywood.
Traduzir tramp como "vagabunda" no
português moderno soa apenas como um xingamento gratuito, mas na música é um
elogio disfarçado de crítica. Ela é uma mulher livre, independente e que
prefere um passeio no parque a um jantar hipócrita com barões e condes.
A semelhança de “The Lady Is a Tramp” com "Je
veux" (Eu quero), o grande sucesso que lançou a francesa Zaz para o mundo
em 2010, é impressionante.
A filosofia por trás de "The Lady Is a Tramp"
e "Je veux" é exatamente a mesma: uma crítica bem-humorada e
enérgica ao materialismo, à hipocrisia da alta sociedade e à obsessão por
status, defendendo que a verdadeira felicidade está na liberdade e nas coisas
simples.
Veja como as duas músicas conversam perfeitamente:
O paralelo das letras
Enquanto a "Dama" da música americana recusa
jantares finos às oito e casacos de pele no Harlem, a Zaz canta logo na
abertura de Je veux:
Me dê uma suíte no Ritz, eu não quero Donnez-moi une suite au Ritz, je n'en veux pas
Joias da Chanel, eu não quero Des bijoux de chez Chanel, je n'en veux pas
Me dê uma limusine, o que eu faria com ela? Donnez-moi une limousine, j'en ferais quoi?
E no refrão, Zaz resume o espírito despojado que define as
duas canções:
Eu quero amor, alegria, bom humor Je veux d'l'amour, d'la joie, de la bonne humeur
Não é o seu dinheiro que vai fazer a minha felicidade Ce n'est pas votre argent qui f'ra mon bonheur
Vamos juntos descobrir a minha liberdade Allons ensemble découvrir ma liberté
Esqueça todos os seus clichês, bem-vindo à minha realidade! Oubliez donc tous vos clichés, bienvenue dans
ma réalité!
Além da letra, a atmosfera musical das duas é muito próxima.
- The
Lady Is a Tramp nasceu no Swing Jazz tradicional das big bands
americanas, cheio de ritmo e atitude.
- Je
veux bebe direto na fonte do Gypsy Jazz (ou Jazz Cigano), um
estilo de jazz francês muito acústico, rápido e cigano francês, popularizado por
Django Reinhardt nos anos 1930 (curiosamente, a mesma década de The
Lady Is a Tramp).
Ambas as músicas têm aquela levada de "tô nem aí para
as aparências" que dá vontade de estalar os dedos ou sair dançando pela
rua. É quase como se a personagem de The Lady Is a Tramp tivesse cruzado
o Atlântico e se transformado na própria Zaz cantando em Paris.
O surgimento desse tema tanto nos Estados Unidos quanto na
Europa não é uma coincidência. A música e a arte funcionam como termômetros
sociais e, ciclicamente, as sociedades ocidentais entram em crises de saturação
com o materialismo, o consumismo e as aparências.
Existem três grandes motivos históricos, econômicos e
culturais que explicam por que esse "grito de liberdade" ecoa dos
dois lados do Atlântico:
Respostas a Crises Econômicas (O contraste da ostentação)
Curiosamente, as duas músicas nasceram logo após grandes
abalos financeiros globais, momentos em que a ostentação da riqueza passou a
soar extremamente ofensiva para o cidadão comum.
- Nos
EUA dos anos 1930 (The Lady Is a Tramp): A música é de 1937, auge
da Grande Depressão. Enquanto a maior parte da população americana passava
por dificuldades severas, uma pequena elite em Nova York continuava
frequentando jantares de gala e desfilando peles. Ironizar essa elite era
uma forma de protesto e de sobrevivência moral para o povo.
- Na
Europa dos anos 2010 (Je veux): A música foi lançada em 2010, logo
após a crise global de 2008 (que quebrou bancos e gerou desemprego em
massa na Europa). Havia um sentimento forte de indignação contra o sistema
financeiro e contra a cultura do "hiperconsumismo". Zaz deu voz
a uma juventude europeia que percebeu que acumular bens não garantia
estabilidade nem felicidade.
A Tradição da "Boemia" e do Espírito Livre
Tanto a cultura europeia quanto a americana têm arquétipos
muito fortes baseados na rejeição das regras sociais rígidas.
- O
Romantismo e a Boemia Francesa: Na França, existe uma longa tradição
cultural (que vem desde o século XIX) de celebrar o artista boêmio, o flâneur
(aquele que caminha pela cidade apenas para observar) e a filosofia que questiona o consumismo. Je veux bebe direto dessa fonte:
a ideia de que ser livre e autêntico é o maior status possível.
- O
"Vagabundo" Americano (The Hobo/The Tramp): Nos EUA, a
figura do andarilho que viaja de trem sem rumo sempre foi romantizada na
literatura (como em Mark Twain e Jack Kerouac) e no cinema (como o icônico
"Vagabundo" de Charlie Chaplin). Para o americano, o tramp
ou o hobo representam a liberdade absoluta em um país que, por
outro lado, cobra muito foco em trabalho e dinheiro.
A Saturação das "Máscaras Sociais"
Viver em sociedade exige seguir etiquetas: vestir-se de
certa forma, frequentar certos lugares, rir de piadas sem graça para manter
contatos profissionais (o famoso networking).
Essas músicas servem como uma válvula de escape psicológica.
Quando a música diz que a dama "não perde tempo com pessoas que
odeia" ou quando Zaz canta "esqueça todos os seus
clichês", o público sente uma catarse instantânea. É o desejo
universal de ligar o "foda-se" para as expectativas alheias e
simplesmente ser quem é.
No fim das contas, seja através do Swing Jazz em Nova York
ou do Gypsy Jazz em Paris, o recado é o mesmo e permanece atemporal: o sistema
quer que você compre coisas, mas a sua alma só quer liberdade.
